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Relancamentos
Contrastes e confrontos
Bruno Dorigatti · Rio de Janeiro (RJ) · 26/1/2009 12:06 · 115 votos
Artigos e ensaios, reunidos num único volume pela editora Livraria Chardron, do Porto (Portugal).

A VIDA DAS ESTÁTUAS

O artista de hoje é um vulgarizador das conquistas da inteligência e do sentimento. Extinguiu-se-lhe com a decadência das crenças religiosas a maior de suas fontes inspiradoras. Aparece num tempo em que as realidades demonstráveis dia a dia se avolumam, à medida que se desfazem todas as aparências enganadoras, todas as quimeras e miragens das velhas e novas teogonias, de onde a inspiração lhe rompia, libérrima, a se desafogar num majestoso simbolismo. Resta-lhe, para não desaparecer, uma missão difícil: descobrir, sobre as relações positivas cada vez mais numerosas, outras relações mais altas em que as verdades desvendadas pela análise objetiva se concentrem, subjetivamente, numa impressão dominante. Aos fatos capazes das definições científicas ele tem de superpor a imagem e as sensações, e este impressionismo que não se define, ou que palidamente se define "como uma nova relação, passiva de bem-estar moral, levando-nos a identificar a nossa sinergia própria com a harmonia natural".

É a "verdade extensa", de Diderot, ou o véu diáfano da fantasia, de Eça de Queiroz, distendido sobre todas as verdades sem as encobrir e sem as deformar, mas aformoseando-as e retificando-as, como a melodia musical se expande sobre as secas progressões harmônicas da acústica, e o arremessado maravilhoso das ogivas irrompe das linhas geométricas e das forças friamente calculadas da mecânica.

Daí as dificuldades crescentes para o artista moderno em ampliar e transmitir, ou reproduzir, a sua emoção pessoal. Entre ele e o espectador, ou o leitor, estão os elos intangíveis de uma série cada vez maior de noções comuns — o perpetuum mobile dessa vasta legislação que resume tudo o que se agita e vive e brilha e canta na existência universal. Diminui-se-lhe a primitiva originalidade. Vinculado cada vez mais ao meio, este lhe impõe a passividade de um prisma: refrata os brilhos de um aspecto da natureza, ou da sociedade, ampliando-os apenas e mal emprestando-lhe os cambiantes de um temperamento. Já lhe não é indiferente, nestes dias, a idéia ou o assunto que tenha de concretizar no mármore ou no livro.



O autor

Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha nasceu em Cantagalo a 20 de janeiro de 1866 e morreu envolvido em um escândalo familiar, assassinado em duelo pelo amante da esposa, a 15 de agosto de 1909. Formado engenheiro militar em 1892, exerceu a função de engenheiro civil. Foi membro da Academia Brasileira de Letras, do Instituto Histórico, e catedrático em Lógica pelo Colégio Dom Pedro II. Escreveu Os Sertões com base em sua experiência na Guerra de Canudos, que testemunhou como repórter correspondente do jornal O Estado de São Paulo.



Autoria


Euclides da Cunha
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