Prezados partcipantes deste fórum,
Estou na casa dos 50. Tenho filhos de 10, 15 e 25 anos.
Desde pequeno me interessei pelo assunto sexo (como acho que todos tiveram suas curiosidades e dúvidas).
Fui aluno do Colégio Estadual André Maurois na década de 60. Para quem não sabe, nessa época a diretora da escola era Henriete Amado, que desenvolveu uma experiência pioneira no ensino de segundo grau. Lá, tínhamos aulas de educação sexual (alunos e alunas entre 11 e 15 anos), aulas de química em que fizemos experiências com ratos cobaias que "usavam" drogas, e verificamos, aterrorizados, o mal que isto lhes fazia; além do "espaço' que a diretora nos dava em sua sala.
Me lembro de uma vez em que resolvemos pintar a parede da sala de aula com nossas criações e isso gerou um rebuliço na escola. D. Henriete, como a chamáva-mos, alertada por professores assustados, foi assistir a nossa expressão de criatividade. Alguns professores de outras turmas também vieram, assim como vários alunos de outras salas. D. Henriete, com sua sabedoria e talento para lidar conosco, jovens cheios de sonhos e dúvidas, acompanhpu o trabalho até o final. A parede ficou linda, toda pintada. Sempre sorrindo, ela elogiou nosso trabalho, o que nos deixou satisfeitos. Porém, antes de sair da sala também nos disse: - Vocês irão agora mesmo pegar baldes, água, sabão e escovão, e deixar esta parede branca outra vez.
Seu lema era "liberdade com responsabilidade". para nós foi como uma ducha de água fria, mas depois, com o tempo, percebemos que certas regras devem ser obedecidas, ou estaríamos numa "terra sem lei" onde tudo é permitido, o que, evidentemente, compreendemos que não seria legal.
Ao final da década de 60, anos de censura e repressão, um novo chefe de segurança pública assumiu o cargo no Rio e soube que ela, nossa querida diretora (ela era uma unanimidade) tinha em seu poder uma lista de alunos que usavam drogas, com os quais ela desenvolvia um trabalho pioneiro de acompanhamento individual. O então policial ou autoridade, não lembro o nome dele, exigiu que ela lhe entregasse a lista dos alunos "viciados", o que ela, evidentemente, jamais faria. Foi afastada do cargo e a escola passou a ser apenas uma escola "comum". Quem se interessar pelo assunto pode procurar por "Uma Experiência Interrompida", de HENRIETTE AMADO E OUTROS, editora Lidador.
Minha visão daquele período em que tivemos a oportunidade especial de sermos alunos daquele colégio, dirigidos por uma pessoa com a mente bem a frente de seu tempo, é das coisas mais ricas que tenho em minha lembrança.
Acho que o assunto desta nossa conversa é muito interessante e é uma pena que ainda se tenha tão pouco espaço saudável e aberto para essas discussões e aprendizados entre os jovens de hoje.
As vezes tenho a sensação de que as escolas atuais estão meio sem rumo. O mundo está mudando tão rapidamente, com novas tecnologias, novos desafios, novas questões e as escolas, me parece, não sabem bem como acompanhar essa evolução disparada. Existem exceções, evidentemente. Mas eu sinto este desnorteamento no ar.
Fui professor de design na PUC e na Faculdade da Cidade, aqui no Rio, além de ajudar a fundar o curso de desenho industrial na UFPB, em Campina Grande, Paraíba, no início dos anos 80.
Tenho pela educação uma verdadeira reverência e acho que ela é a única chave para atravessarmos o portal desta nova era; se vamos conseguir ou não, não sei.
Essa crise toda, o problema ambiental, a superpopulação, bilhões de pessoas famintas e miseráveis. São um problema e tanto.
No entanto, considero que a questão sexual está ainda sob o tabu.
Acho que, quanto mais liberdade responsável de aprender sobre este tema as crianças e os jovens tiverem, melhor.
Na minha opinião a direção da Escola Parque errou.
Perderam uma chance muito boa de abordar com franqueza e sem hipocrisia este tema tão fundamental para todos nós, seres humanos.
É só dar uma olhada no que acontece em termos de repressão pelo mundo (Afeganistão com burcas, africanas com clitoridectomia, homofobismo, etc...) para se ver o que esta questão mal entendida pode provocar de estrago e sofrimentos na humanidade.
Abraços cordiais a todos os participantes deste fórum.
Torcendo par que a humanidade encontre um rumo bom e seguro para nosso futuro.
Alexandre Eduardo Weiss · Rio de Janeiro (RJ) · 25/10/2008 21:15