O Estado de S. Paulo inaugurou ontem, domingo 14, seu novo projeto gráfico, que inclui a criação de novos cadernos e uma reforma em seu portal na internet. O destaque fica com o novo caderno dedicado aos livros,
Sábatico, e que já circulou no último sábado, 13 de março.
A estréia indica o caminho que o caderno deve seguir e, a se basear nessa primeira edição, teremos mais um bom espaço para a discussão sobre os livros e a cultura livresca. Além de resenhas, entrevistas e perfis, o caderno traz coluna de Sérgio Augusto, a seção Babel, sobre notas e comentários a respeito do mercado ediorial, a republicação de textos do antigo Suplemento Literário do mesmo Estado, que circulou entre 1956 e 1974, e contos inéditos.
Confira os principais destaques da estréia do novo caderno:
# ''Eletrônicos duram 10 anos, livros, 5 séculos'', afirma Umberto Eco. Em livro escrito com o colega Jean-Claude Carrièrre, o escritor e professor discute a permanência do livro em nossa cultura:
"O desaparecimento do livro é uma obsessão de jornalistas, que me perguntam isso há 15 anos. Mesmo eu tendo escrito um artigo sobre o tema, continua o questionamento. O livro, para mim, é como uma colher, um machado, uma tesoura, esse tipo de objeto que, uma vez inventado, não muda jamais. Continua o mesmo e é difícil de ser substituído. O livro ainda é o meio mais fácil de transportar informação. Os eletrônicos chegaram, mas percebemos que sua vida útil não passa de dez anos. "
# "Piratas da Pena de Pau", artigo de Sérgio Augusto onde o jornalista comenta a linha tênue entre "apropriação artística" e plágio:
"Por muitos séculos o que se dizia e escrevia foi considerado patrimônio público, palavras literalmente ao vento, barata-voa. Os romanos reescreviam os gregos e vice-versa, sem remorso, sem ameaça de processo judicial. No império romano, chamavam de plagiarus o ladrão de escravos ou crianças, não o de ideias ou textos. Virgilio gatunou Homero, Aristófanes pegou em charco alheio a trama de As Rãs, Shakespeare fez de Plutarco o seu banco de dados biográficos, Chaucer meteu a mão em Boccaccio.
O conceito atual de plágio tem apenas 500 anos de circulação. Consta ter sido inventado pelo dramaturgo inglês Ben Jonson, e só se consolidou como delito depois que as criações artísticas passaram ser tratadas como mercadorias. Não é crime, assegurou um estudioso do assunto, Thomas Mallon, em Stolen Words. Mas é coisa feia, acrescentou. Para em seguida perguntar: 'Ou será que não é?'"
# "Manoel de Barros, o poeta que veio do chão". Em perfil de Daniel Piza, que visitou o poeta em Campo Grande, conhecemos um pouco mais sobre o poeta que mais vende livros no país, um homem simples e tranqüilo que escolheu as (ou foi escolhido pelas) insignificâncias e as coisas sem importância como mote de sua poesia. Ele publica novo livro pela Leya,
Menino do mato, editora que lança também sua
Poesia completa :
"Até os 8 anos, morou numa fazenda perto de Corumbá, em cujo chão brincou com as criaturas que tanto aparecem em sua poesia: sapos, formigas, lesmas, passarinhos, borboletas. Quando adulto, nos anos 50, morou ali por mais dez anos sem escrever um verso sequer - até que pudesse 'financiar o ócio', ou seja, ter dinheiro para se mudar e sobreviver como poeta. Nos outros 65 anos de vida, só morou em cidades: Rio, que diz até hoje adorar, e Campo Grande, que preferiu a Cuiabá pelo clima menos impiedoso. O poeta pantaneiro, quem diria, gosta de asfalto."
# "Obra-prima sem nada que a precedesse". Na estréia do
Suplemento Literário, em 06.10.1956, seu idealizador, o crítico Antonio Candido, escrevia sobre o romance recém-lançado de Guimarães Rosa. O
Sabático irá republicar os melhores textos do finado caderno:
"Este romance é uma das obras mais importantes da literatura brasileira - jacto de força e beleza numa novelistica algo perplexa como é atualmente a nossa. Não segue modelos, não tem precedentes; nem mesmo, talvez, nos livros anteriores do autor, que, embora de alta qualidade, não apresentam a sua característica fundamental: transcendencia do regional (cuja riqueza peculiar se mantém todavia intacta) graças á incorporação em valores universais de humanidade e tensão criadora."
# Babel, coluna de notas e comentários sobre o mercado editorial, por Raquel Cozere Andrei Netto:
Borges e Vinicius em diálogo sobre a beleza
"Com a
serrote #4 saindo do forno por estes dias, o Instituto Moreira Salles já tem uma pepita garantida para a quinta edição da revista, que chega às livrarias apenas em julho. Trata-se de um bate-papo entre Vinicius de Moraes e Jorge Luis Borges, datado de 16 de setembro de 1975 e quase nada conhecido por aqui. A transcrição do diálogo foi localizada no anuário do La Vanguardia pelo poeta Eucanaã Ferraz, consultor literário do IMS, e terá agora a primeira tradução para o português. É uma conversa organizada pela jornalista argentina Odile Baron Supervielle e que Vinicius trata de tornar descontraída. Em meio a discussões sobre morte, amor e bebida, o poetinha pergunta ao portenho (já cego àquela altura) como ele percebe a beleza feminina. O escritor responde que pode senti-la, mas que não a considera fundamental. 'Há feias que são amadas', diz, ao que Vinicius reage: 'Mas muito, muito feias, não, Borges. Há feias que não têm remédio.'
# "Homem contempla barcos encalhados". Conto inédito de Ronaldo Correia de Brito, que integra o livro
Retratos Imorais (Alfaguara), que sai em setembro:
"[...] Ramon acendeu um cigarro e riu. Nunca contava os cigarros fumados, nem olhava as fotografias ilustrando as embalagens, para não se amedrontar e desistir do vício. Um homem numa máscara de oxigênio e a frase ameaçadora: O Ministério da Saúde adverte: fumar provoca câncer de pulmão. A foto mais aterrorizante era a de um cigarro com as cinzas arqueadas, sugerindo algo que baixara e nunca mais se levantaria. Nem precisava ler o que estava escrito. Uma sucessão de horrores como nos quadros de Jerônimo Bosch: meninos desnutridos, membros ulcerados, rostos anêmicos, corpos escaveirados, um tratado de patologias. Ele mesmo perdera os dentes, um a um, enferrujados pela nicotina. [...]"
O
Sábatico, entre outros textos, traz ainda
resenha de Aurora Bernardini do livro de Tolstói, Khadji-Murát, lançado pela Cosac Naify, e
matéria de Lúcia Guimarães sobre a Bilbioteca Pública de Nova York que recebeu, em 2009, 40 milhões de visitantes.
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