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O texto encarnado em luz e som
Felipe Pontes, Rio de Janeiro (RJ) · 20/4/2010 · 1
Divulgação
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Capa do livro de Jean-Claude Bernardet

O cinema não existe, o que existem são os filmes. Consta que a frase foi dita pelo mestre Paulo Emílio Sales Gomes a um ainda jovem Jean-Claude Bernardet, cuja obra viria a se tornar uma das mais importantes contribuições ao pensamento crítico sobre cinema no Brasil. "Mas e quando os filmes não existem?", é a pergunta lançada hoje por Simplício Neto, curador da Mostra Cineastas e Imagens do Povo, que tem início nessa terça-feira, 20 de abril, no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro.

Belga de nascença, Jean-Claude Bernardet chegou ao Brasil aos 13 anos de idade, naturalizou-se e abraçou a cultura do novo país a ponto de se tornar um expoente no estudo do cinema nacional. Cineastas e imagens do povo é o título de sua obra-prima. Lançado pela primeira vez em 1985 e reeditado pela Companhia das Letras em 2003, o livro reúne em nove ensaios a análise de conflitos ideológicos e estéticos dos cineastas brasileiros na sua relação com a temática popular entre os anos ditatoriais, de 1964 a 1980.

Além da grande contribuição temática, o texto de Bernardet é uma aula metodológica, nenhuma consideração teórica é feita sem a âncora na materialidade dos filmes: vinte documentários brasileiros (18 curtas e dois longas), selecionados por ele como importantes para a época estudada.

Rapidamente, Cineastas e imagens do povo tornou-se bibliografia obrigatória entre os pesquisadores e estudantes do cinema brasileiro. Só que num movimento contraditório ao próprio alicerce do pensamento de Bernardet, o estudo de boa parte dos documentários citados no texto passou a ter de prescindir dos objetos de estudo em si, devido à raridade e a dispersão dos filmes.

"Infelizmente isso acontece... e muito. Somos obrigados a contar com o que já se chamou de cinematografia imaginária do cinema brasileiro", diz Simplicio Neto, que também é professor do primeiro curso de Cinema do país, na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, Rio de Janeiro. "São filmes dos quais só se ouve falar, se lê em tal e tal lugar que tal critico escreveu sobre na época do lançamento, mas o filme se encontra inacessível."

No que diz respeito ao Cineastas e imagens do povo, agora não mais. A mostra resgata, com a colaboração de instituições como a Cinemateca Brasileira, a Cinemateca do MAM-Rio, Ctav e Arquivo Nacional, boa parte dos filmes citados no livro. A exceção de um pequeno número de obras, uma minoria bem complicada. "Por conta de seus materiais, cópias, negativos, ou bandas sonoras  já estarem comprometidos de uma ou outra maneira ou mesmo por conta da dificuldade de lidar com alguns realizadores, alguns já falecidos e com herdeiros morando fora do país, por exemplo", explica Neto. Entre os irrecuperáveis está Destruição cerebral, filme de direção coletiva de 1976. Entre os recuperados estão filmes praticamente inéditos, que há três décadas ainda se encontravam presos no acervo da censura federal, como é o caso de Tarumã, co-dirigido por Mário Kuperman, Romeu Quino e Guilherme Lisboa.

Outro destaque, no ensejo das comemorações dos 50 anos de Brasília, é a oportunidade de assistir na grande tela aos filmes Anos JK, do diretor Silvio Tendler (autor também de Jango, que pode ser visto no Google) e Brasília segundo Feldman, filme com imagens do início das construções da cidade, produzidas pelo designer americano Eugene Feldman e dirigido por Vladmir Carvalho. O filme é flagrante da pouca segurança dos trabalhadores em razão do ritmo acelerado das obras e traz depoimentos de candangos pioneiros.

Mas não é só. Além de ser montada de acordo com a lógica dos capítulos do livro, a Mostra Cineastas e Imagens do Povo, em conjunto à exibição de filmes, promove debates com a presença de diversos realizadores e cursos ministrados por professores de cinema das universidades federais cariocas. Um verdadeiro exercício de reencarnação do texto escrito em luz e som. Para completar, foi confeccionado um catálogo com textos redigidos especialmente para a mostra, numa releitura e tentativa de reflexão crítica do conteúdo de Cineastas e imagens do povo. Aos 74 anos, o próprio Jean-Claude Bernardet (ainda ativo, inclusive com um blog), que por razões de saúde encontra-se impedido de viajar, comparecerá à versão paulista da mostra.

São hoje exíguas as instalações não-comerciais dedicadas ao dispendioso trabalho de conservação de filmes no Brasil. Um desses templos é a Cinemateca Brasileira, que realizou importantes trabalhos de restauro da obra de cineastas do Cinema Novo nos últimos anos, como Macunaíma (Joaquim Pedro de Andrade), Barravento (Glauber Rocha) e Eles não usam black-tie e A falecida (Leon Hirzman). Contudo, é um esforço muito aquém da demanda por conservação do acervo cinematográfico brasileiro.

A Mostra Cineastas e Imagens do Povo acontece entre os dias 20 de abril e 9 de maio no Rio de Janeiro, 19 de maio e 6 de junho, em São Paulo, e 8 e 27 de junho, em Brasília, sempre no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) de cada cidade. Confira a programação completa e mais informações aqui.



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Ótimo artigo.A referência aos filmes "desaparecidos" mostra o persistente descaso com nosso acervo cultural, de maneira geral.Abs.André.

andre albuquerque · Recife (PE) · 24/4/2010 16:19
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