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Desacordo ortográfico
Bruno Dorigatti, Rio de Janeiro (RJ) · 6/11/2009 · 2
Reprodução
Detalhe da capa de Fernando Schlickmann e Fabrício Prettoda para a antologia
“Num dia deu na Globo que o Acordo começaria a vigorar, no outro dia a gente recebia centenas de e-mails da família ‘Acordo Ortográfico: não trema na lingüiça!’” Quem fala é o escritor gaúcho Reginaldo Pujol, que acaba de organizar a antologia Desacordo ortográfico (Não Editora), cujo lançamento é no dia 13 de novembro, em Porto Alegre. Os contos de autores brasileiros, portugueses, angolanos e moçambicanos procuram exatamente ressaltar o contrário do que pretende o Acordo Ortográfico já em vigor por aqui, apesar da pífia discussão que teve, mas que ainda precisa ser ratificado em Portugal para vigorar no mundo lusófono: as diferenças, as particularidades, as sonoridades próprias da língua portuguesa falada e escrita em cada um destes lugares.

“Procurei selecionar escritores de língua portuguesa, vivos, nos quais eu enxergasse uma estranheza na linguagem, algo que me despertasse. E aí isso vai do jeitão do Cardoso escrever, até a invenção de uma língua quase própria do Luandino Vieira ou do Manoel de Barros, por exemplo”, conta Pujol nesta entrevista ao Portal Literal. No total, 20 autores participam da empreitada, que ganhou um blog onde é possível ouvir trechos dos contos, lidos por alguns dos participantes e leitores e inclusive está aberto para a colaboração de todos.

Como afirma o angolano Pepetela, “desacordos-desencontros são vias necessárias para chegar aos acordos-encontros que todos procuramos”. E muito mais úteis do que os alegados ganhos que teremos com o Acordo. Sem falar nos fortes interesses econômicos de editoras, que desejam entrar no mercado de livros didáticos sobretudo no continente africano. A seguir, Pujol, autor de Azar do personagem (Não Editora, 2008) comenta sobre esses assuntos.


Como surgiu a idéia da antologia Desacordo ortográfico?

Reginaldo Pujol.
Cara, isso foi lá no final de 2007. Acho que foi numa conversa com a Jajá (minha namorada). A gente falava sobre o Acordo Ortográfico, coisa e tal, e lá pelas tantas isso me lembrou da mesa do Mia Couto na Flip, de como ele contou sobre quando ele descobriu literatura brasileira, do espanto de ver um (ou vários) outro jeito de fazer com o português. No momento em que o Mia disse isso, associei à relação que eu tenho com autores como ele, Gonçalo Tavares e tantos outros que, sempre que eu leio, me fazem reaprender nossa língua. Pois então, lembrei disso tudo e comecei a pensar que o que eu gosto na língua não é dos seus pontos em comum, do que há de igual nela aqui, em Moçambique, em Angola, no Marcelino Freire ou no Cardoso. É justamente o que há de estranho, a descoberta que é possível todos os dias, é o que me encanta. E aí me veio essa de organizar um livro pra dizer isso, pra mostrar isso, que o diferente é bonito e tem que ser valorizado.

Como vê a (falta de) discussão sobre o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que já começou a vigorar aqui, embora ainda precise ser ratificado em Portugal, onde a reação contrária é crescente?

Pujol.
Com todo respeito a quem trabalhou nessa história toda, acho o Acordo uma grande bobagem, tremenda perda de tempo. Acho que não deveria ter tido discussão sobre isso, porque isso não deveria ter existido. Mas houve. E aí a falta de discussão é típica de como as coisas acontecem por aqui, né? Tirando futebol e vencedor do Big Brother, se discute tão pouco de tudo por aqui, por que iam discutir as modificações em uma coisa pra qual a maioria dá tão pouca atenção, que é a língua portuguesa? Aqui a coisa foi tratada com inevitabilidade, num tom de “Estão modificando alguns pontos do português, são esses aqui ó”. Ah, estão é? Estão quem? Estão por quê? Estão quando? Não importa, o Sarney foi absolvido com o apoio do Lula, que é tão estranho quanto lingüiça sem trema e ninguém deu bola.

A que e a quem ele se presta?

Pujol.
Acho que se presta muito bem para as piadas. Vai dizer, num dia deu na Globo que o Acordo começaria a vigorar, no outro dia a gente recebia centenas de e-mails da família “Acordo Ortográfico: não trema na lingüiça!”. Bom, mas também dizem que se presta aos interesses econômicos, que é uma disputa pelo domínio do mercado editorial em língua portuguesa, que unificando a escrita, dá pra imprimir um dicionário aqui no Brasil e vender em Cabo Verde, em São Tomé. Assim como tem a alegação oficial sobre a importância do idioma unificado para o português ser idioma oficial da ONU, que ele não é hoje. Aí eu penso assim, será que isso é coisa do Brasil querendo ganhar o tal assento no Conselho de Segurança? O Brasil ganha um assento e nós perdemos acentos? Não sei, cara, na verdade acho que o Acordo não presta, presta só pra confusão e pra questionar esse tipo de raciocínio pragmático dos dias de hoje de querer uniformizar, deixar tudo igualzinho e mais facilzinho pra todo mundo. Eu não gosto desse tipo de idéia de padronização. No Brasil dizem que estão padronizando o registro das palavras. Em Portugal, que estão padronizando o registo das palavras. Será que estão mesmo?

Como selecionou os escritores que integram a antologia? Como foi a receptividade dos autores?

Pujol.
A seleção tem muito de subjetivo e um pouco de objetivo. Tento explicar: procurei selecionar escritores de língua portuguesa, vivos, nos quais eu enxergasse uma estranheza na linguagem, algo que me despertasse. E aí isso vai do jeitão do Cardoso escrever, até a invenção de uma língua quase própria do Luandino Vieira ou do Manoel de Barros, por exemplo. Tem aquele lugar comum do organizador de antologia de que certamente ficou gente de fora que não poderia ter ficado e eu sei que isso aconteceu. Mas todo mundo que está ali, tinha que estar. Cara, e a receptividade dos autores tem sido fantástica. Eu tinha minhas dúvidas se toda essa gente tão legal ia dar assunto pra um guri que nem eu, mas deram. Claro, que muito porque a idéia também teve ótima recepção no um milhão de pessoas que me ajudaram a fazer contatos, convites, descobrir novos nomes. Muita gente me ajudou pra valer. E, claro, que nem tudo foi sim. Houve negativas, não-respostas de gente que eu queria muito no livro, era inevitável que isso acontecesse, né. Mas, no todo, as expectativas foram amplamente superadas.

Os vídeos publicados no blog são interessantes, pois permitem que tenhamos contato com a fala, primordial também quando se aborda a questão da língua. Pensa em manter a iniciativa on-line, como um complemento da antologia, ou o blog tem servido para a divulgação e convite dos autores?

Pujol.
Não, o blogue não serviu pra convidar autores, quando ele entrou no ar, a seleção estava feita já. Mas ele serve pra divulgar sim o livro, quem são esses autores. Porque o leitor do Verissimo talvez não tenha conhecimento sobre quem é Rogério Manjate. Assim como o leitor do Marcelino talvez não conheça a Patrícia Reis. Então o blogue é um jeito de ir familiarizando os leitores com essa turma. Mas acho que o mais interessante é isso mesmo do contato da fala, de jeitos diferentes de olhar para as palavras se misturando. É o desacordo acontecendo de fato, como vai acontecer na cabeça do leitor, não é? E até por isso, agora o blogue está recebendo vídeos de leitores – não só dos autores – que queiram gravar suas leituras, inclusive tu, Bruno. É só escrever pra desacordo@hotmail.com e dizer qual o trecho que quer ler, que a gente manda por e-mail. Daí o sujeito grava seu vídeo e, na medida do possível, a gente vai colocando no ar. Acho que até por isso o blogue deve se manter ativo por mais um tempo depois do lançamento do livro, que vai ser agora no dia 13 de novembro, aqui em Porto Alegre.

Quem participa do projeto?

Pujol.
São 20 autores, Altair Martins, Cardoso, Gonçalo M. Tavares, João Pedro Mésseder, Luandino Vieira, Luis Fernando Verissimo, Luís Filipe Cristóvão, Manoel de Barros, Marcelino Freire, Maria Valéria Rezende, Nelson Saúte, Olinda Beja, Ondjaki, Patrícia Portela, Patrícia Reis, Pepetela, Reginaldo Pujol Filho, Rita Taborda Duarte, Rogério Manjate e Xico Sá.


> Leia mais sobre o Acordo Ortográfico no Portal Literal


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aplaudo esta matéria. o acordo é um labirint de trapalhadas e engodos. a riqueza do idioma português
se notabiliza pela diversidade da forma como os povos lusófonos o utilizam: padronizar a língua é querer castrá-los em sua identidade.
resta-nos, como arma contra tal delito, a troça.

jessebarbosa26 · Salvador (BA) · 7/11/2009 10:07
E o Senado brasileiro já pensa em autorizar o governo a rever o acordo ortográfico.

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Bruno Dorigatti · Rio de Janeiro (RJ) · 9/11/2009 11:15
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