O passado e o futuro do mercado editorial francês. Esse é o foco do
Seminário Internacional Cultura e Mercado Editorial (sec. XIX-XXI), que acontece nesta quinta, 10 de dezembro, às 19h30, na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP).
O evento reúne os franceses Diana Cooper-Richet e Jean-Yves Mollier, ambos do Centro de História Cultural das Sociedades Contemporâneas, UVSQ. Cooper-Richet vai falar sobre “Editores e livreiros estrangeiros na Paris do século XIX”. Conhecida no século XIX como “capital da República mundial das artes e das letras”, a cidade atraiu povos de todo o mundo. Tal aspecto foi amplamente explorado no campo das artes, porém, pouca atenção fora dada à atuação de estrangeiros no meio editorial, na produção e na comercialização de impressos – entre livros e periódicos. Cooper-Richet ressalta como a “edição estrangeira” voltada para o mercado interno e para a exportação contribuiu para o desenvolvimento do mercado editorial francês nos séculos XIX e XX.
Já Mollier vai abordar as “Estratégias dos grupos de comunicação no alvorecer do século XXI”. Mollier é autor de O dinheiro e as letras – história do capitalismo editorial (1880-1920), a ser lançado em breve pela Edusp. O evento tem coordenação da professora da USP Marisa Midori Deaecto e mediação do professor e pesquisador da Universidade Federal Fluminense (RJ) Aníbal Bragança. Bragança é o coordenador do
Seminário sobre Livro e História Editorial (Lihed), cuja segunda edição aconteceu em maio de 2009, no Rio de Janeiro e Niterói, e reuniu mais de 300 pesquisadores nacionais e estrangeiros, além de profissionais da área do livro e da edição.
Ambos os pesquisadores franceses participaram do II Lihed. Mollier inclusive lançou na ocasião
O camelô, tradução de seu livro
Le camelot e la rue, figura essencial da literatura de rua na França, no fim do século XIX, no mundo árabe-mulçumano, na África hoje em dia e mesmo no Nordeste, com os cordelistas. A seguir, leia a entrevista feita um pouco antes dele desembarcar no Brasil.
O francês Jean-Yves Mollier, do Centro de História Cultural das Sociedades Contemporâneas/Universidade de Versailles Saint-Quentin-en-Yvelines, é um dos principais nomes quando se fala nas pesquisas sobre o livro, edição e leitura, do século XV até os dias de hoje. Autor de mais de dez livros sobre o tema, entre as pesquisas que desenvolve, estão a relação autor-editor na correspondência da editora Calmann-Lévy no século XIX, um balanço dos estudos realizados na França sobre livro e leitura a partir dos anos 1950 até hoje e situação da leitura e seu público no mundo contemporâneo. Lançado em maio pela Edusp,
O camelô, tradução de seu livro
Le camelot e la rue, figura essencial da literatura de rua na França, no fim do século XIX, no mundo árabe-mulçumano, na África hoje em dia e mesmo no Nordeste, com os cordelistas. Por aqui, já saíram
Poder, nação e edição (Anna Blume, 2006), organizado em conjunto com Eliana Dutra, reunião de ensaios apresentados no colóquio homônimo, realizado no Departamento de História da UFMG em 2003, que abordam o papel dos impressos na construção da vida política entre os séculos XVIII e XX, na Europa e nas Américas; e
A leitura e seu público no mundo contemporâneo – Ensaios sobre História Cultural (Autêntica, 2008), que trata da cultura do material impresso na Europa após 1760, e de como ele passa de uma atividade reservada a poucos para um lazer compartilhado por um número bem maior de leitores, no que o autor chama de “lento surgimento de uma cultura de massa”, primeiro na Grã-Bretanha e na França, por volta de 1880, acelerado pelas revoluções escolar e industrial, que deram origem ao romance-folhetim, o manual escolar, o dicionário, o livro de divulgação de conhecimentos.
Leia a introdução do livro.
O senhor afirma que as bases materiais para a leitura de massa surgem em meados do século XIX, com o folhetim, os jornais e revistas populares, bem como os romances a preços baixos. Como elas se tornariam os germes da cultura midiática?
Jean-Yves Mollier. Os germes da cultura midiática estão contida no aparecimento dos faits divers [literalmente, "fatos diversos", em francês, mas que no jargão jornalístico refere-se a acontecimentos pitorescos, inusitados, que geralmente remetem a temas leves, curiosos] e do folhetim na imprensa francesa, no início dos anos 1830. A leitura do jornal passa a ser uma certa obrigação a qual submeteram-se os três quartos dos franceses em 1900 (10 milhões de diários vendidos a cada dia, lidos por 30 milhões entre os 40 milhões de habitantes).
Por que isto definiria a emergência da cultura moderna?
Mollier. A cultura moderna será cada vez menos greco-latina, sábia e letrada e, cada vez mais, uma cultura fundada através da leitura da imprensa e das mídias.
O que se modifica com a aculturação das massas, a partir de 1838, com a revolução nas estruturas escolares e o crescente acesso à informação, sobretudo com a diminuição do preço do livro?
Mollier. A partir deste momento em que a população vai à escola primária, lê o jornal e os folhetins, na literatura, uma fermentação e uma aculturação acontecem.
Como o discurso da “alienação” através dos romances sentimentais ou de aventuras – e depois, do cinema, da televisão, dos computadores e dos videogames – se institui? Por que ele se repete a cada surgimento de uma nova tecnologia e a quem interessa?
Mollier. O discurso das mídias é alienante de uma certa maneira e sinaliza o começo de outra [concorrente]. Ele substitui alienações antigas, tradicionais, de outros, mais sutis, mas impõe também a discussão crítica de novidades, pois o leitor nunca é passivo e nunca adere completamente àquilo que lê.
O que caracteriza as pesquisas sobre livro e leitura na França entre 1950 e 2008?
Mollier. Quatro fases se sucedem: Febvre e Martin se empreendem primeiramente em um domínio até então deixado aos literários; em seguida, Martin e Chartier lançam a História da edição francesa, apoiando-se em pesquisas numerosas sobre os séculos XVI, XVII e XVIII, mas insuficientes para os séculos XIX e XX, que eu vou dirigir (terceira fase). A quarta será aberta em 2000 com o início de colóquios internacionais e comparativos.
Quais as principais mudanças nos hábitos de leitura em relação a primeira metade do século XX?
Mollier. A aposta de políticas públicas de leitura é a maior mudança, colocada em 1936 e então recolocada em 1945, mas verdadeiramente realizada depois de 1970. Oito milhões de objetos impressos se encontravam em bibliotecas públicas francesas em 1950, número que chegou a 200 milhões hoje em dia.
Como avaliar qualitativamente esses hábitos? Qual a melhor maneira para não torná-los reducionistas?
Mollier. É muito difícil, através de testes, de questionários inteligentes (é muito raro!), de questões incômodas, íntimas, como o lugar onde deixamos livros nos apartamentos, os livros da mulher, do homem, das crianças etc.
Como as novas tecnologias influenciam e alteram os hábitos de leitura?
Mollier. A tela plana modifica radicalmente a apreensão do texto pelo olhar e mesmo pelo corpo, então a consciência. Do papiro ao livro e à tela plana, não lemos o mesmo texto mesmo se temos a ilusão de que ele não mudou (por exemplo, um diálogo socrático). O suporte material induz modos de recepção diferentes.
A partir da análise da relação autor-editor, tendo como base a correspondência da editora Calmann-Lévy no século XIX, quais as principais contribuições para as instituições literárias?
Mollier. Os arquivos dos editores esclarecem os lados esquecidos do campo literário: do editor, do diretor de coleção, do leitor, na escrita final do volume publicado, as recomendações do livro à imprensa, aos críticos etc.
Quais são as mudanças fundamentais nessa relação ao longo do século XIX?
Mollier. O autor dominava a relação autor-editor (livreiro na época) na época de Voltaire; o editor obteve o poder no início do século XIX e seu poder se fortaleceu no século XX.
E em relação ao século XXI, o que permanece e o que sofreu profundas mudanças?
Mollier. Num grupo de comunicação (imprensa, rádio, TV, editora), somente os autores midiáticos têm importância. Tudo é feito por eles, poucas coisas pelos outros, abandonados a editores de segunda categoria, exceto quando eles obtêm um sucesso inesperado.
Poderia falar um pouco sobre do que trata o livro O camelô (Edusp)
Mollier. O camelô é uma figura essencial da literatura de rua na França, no fim do século XIX, no mundo árabe-mulçumano, na África hoje em dia e mesmo no Nordeste ou na Bahia onde os cantores de rua, cordelistas, reatam com a tradição dos trovadores.
Seminário Internacional Cultura e Mercado editorial (sec. XIX-XXI)
Data: 10 de dezembro de 2009 (Quinta-feira)
Horário: 19h30
Local: Auditório Freitas Nobre (CJE-ECA)
Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, 443 - bl. A
Cidade Universitária - São Paulo - SP
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