Saudade é predicativo do sujeito tédio. Se quisesse imaginar um tédio maior do que o meu, teria que pensar em algo parecido com um paulistano condenado a viver sozinho no avesso da cidade de São Paulo. Eu sentia saudade de quase tudo.
Saudade da minha infância à beira do mar apinhado de sardinhas – tantas, que se a verdade contasse passaria por mentirosa -.
Não eram como as portuguesas, estreitas e de poucas espinhas. As do meu mar eram espinhentas, largas e claras. Suas escamas eram, talvez, as únicas lentes capazes de refletir a luz solar com a mesma luminosidade da cor de origem: pela manhã o inoxidável polido ao extremo e à tarde, o amarelo do ouro novo nas alianças de noivado. Doía na vista olhá-las saltitando nas redes esticadas na superfície sob o sol. Eram espinhentas, porém mais bonitas. Sardinhas não servem apenas de alimento, servem também para se olhar e para atrair albatrozes, gaivotas e outras aves marinhas, banidas do nosso litoral pela fome. Talvez não tenham nos abandonado, acabaram devoradas pelo animal homem em sua saga de expansão da cadeia alimentar. Se o homem foi obrigado a incluir nela o alimento lixo, tudo pode ter sido devorado antes disso.
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