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Zuenir Ventura - O meu tempo é hoje
 
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Portal Literal 2.0, Rio de Janeiro (RJ) · 3/5/2010 · 44 votos · 1
  
Reprodução
O jornalista e escritor em Paris. Maio 1968.
Publicado originalmente por Isabel Coutinho na revista Pública, do jornal português Público.


Na década de 1990 quis saber a razão de tanta violência numa cidade alegre, o Rio de Janeiro, e assistiu a bailes funk nas favelas. Para perceber o que pensam os jovens, hoje, foi a festas rave. O jornalista e escritor brasileiro mudou as atitudes depois de ter cancro. Não vale a pena valorizar o que não interessa: “Preocupava-me com tanta bobagem…”

Zuenir Ventura é um óptimo contador de histórias, sempre com um sorriso doce. Aos 78 anos, basta-lhe dormir uma sesta para estar pronto para tudo. Há dois anos, o escritor e jornalista brasileiro foi visto a cirandar em festas rave. Desde que nasceu Alice, a sua neta, deixou de pertencer ao Movimento dos Sem-Netos, criado pelo escritor Luís Fernando Veríssimo; Zuenir Ventura é um vovô babado.

Um autêntico vovô-garoto como se nota pelas crónicas que semanalmente assina no jornal O Globo.

Esteve no Correntes d’Escritas, o encontro de escritores de expressão ibérica na Póvoa de Varzim, a reeditar Inveja - Mal Secreto (Planeta), até agora o seu único livro publicado em Portugal. Foi um dos seus muitos regressos ao país da Revolução dos Cravos, onde esteve, em 1974, como enviado especial da revista Veja (foi o primeiro jornalista brasileiro a entrar no país, onde esteve com o cineasta seu amigo Glauber Rocha). Como correspondente internacional acompanhou também o Maio de 1968 em Paris e tem dois livros dedicados a esse ano. Recebeu o Prémio Esso de Jornalismo (o mais importante no Brasil) pelas reportagens que realizou sobre o assassínio do seringueiro Chico Mendes. Altura em que quebra as regras do jornalismo e, para o salvar da morte, adopta o menino que testemunhou o crime e leva-o para o Rio de Janeiro.

É o homem que passou dez meses numa favela para perceber porque é que existia violência na sua cidade, que ao olhar para a sua geração, a de Maio de 68, percebeu que o que tinha era curiosidade de compreender os adolescentes de hoje. Zuenir Ventura nasceu em Minas Gerais, mas é carioca por opção, apesar de ser difícil ser inteiramente feliz no Rio de Janeiro, por causa da desigualdade e injustiça social.

Quase aos 80 anos, o escritor já não tem vergonha de ser feliz.


Quando foi ao Programa do Jô Soares, que passou recentemente na TV Globo Internacional, surpreendeu todos ao mostrar fotografias suas tiradas em festas rave.

As pessoas brincam comigo. Dizem que eu gosto, mas é pura curiosidade jornalística. [risos] Quis saber como estava a juventude de hoje. Como uma das suas manifestações são as raves, fui ver como são. Foi impressionante essa minha ida às raves, em 2008, tal como tinha sido assistir aos bailes funk, em 1993.

Assistiu a esses bailes funk nos meses que passou na favela de Vigário Geral em reportagem?

Na favela acabei querendo conhecer tudo e fui a bailes funk. Acho que o funk não chegou ainda aqui a Portugal, pois não? É uma música muito violenta, com uma batida muito forte, uma manifestação do rap que a gente chama de “bate-estaca”. Naquela época, nesses bailes, havia uma simulação da violência muito forte.

As pessoas se agrediam e brigavam. Era uma coreografia impressionante da violência que dominava a comunidade. Hoje o funk está difundido, não só no Rio de Janeiro, mas em toda a periferia das cidades brasileiras. É a manifestação cultural dessas comunidades.

Contou essa experiência no livro Cidade Partida, sobre as causas da violência no Rio de Janeiro, pelo qual recebeu o Prémio Jabuti de Reportagem.

Eu queria saber por que é que a cidade nessa época estava tão violenta. Como se explicava tanta violência numa cidade tão afectuosa, tão alegre, tão festeira? Comecei a pesquisar para o livro e aconteceram as chacinas da Candelária (com oito meninos mortos) e da favela Vigário Geral, em que 21 pessoas morreram assassinadas.

O pior esquadrão da polícia - mais bandida do que policial - acabou executando essas pessoas em 1993. Quis ir até lá como cidadão: para entender, um pouco, o que tinha acontecido.

Como é que estava aquela favela depois dessa chacina de pessoas inocentes? No início nem pensava incluir a experiência no livro. Depois de ir lá, mudou de opinião.

Passei a frequentar a favela Vigário Geral e fiquei realmente impressionado. O primeiro choque cultural foi que eu achava que ia encontrar um ambiente de ódio. Cada pessoa com quem eu conversava na favela tinha conhecido um parente que tinha morrido na chacina.

Ficava lá de dia, às vezes de noite, e dez meses depois resolvi transformar essa vivência na favela - os conhecimentos, as observações - num livro. Quis fazer uma crónica desse universo que era ao mesmo tempo próximo e distante de mim.

O que quer dizer com isso?

Ficava geograficamente perto de onde eu morava, a 30 minutos, e era um outro universo. Toda aquela comunidade estava dominada pelo narcotráfico, havia crianças com fuzis, armados como se estivessem numa guerra. Convivi com aquilo. Estava sentado num bar, com alguém, e de repente chegava um desses meninos chamados “soldados do tráfico”. Era uma experiência tão forte que eu não sabia o que fazer com aquilo. Pensava: o que é que eu faço com essa vivência tão original e ao mesmo tempo tão traumática? Esse contacto com os meninos, com os garotos que podiam ser meus filhos, meus netos, todos armados?

Na favela conheceu o sociólogo Caio Ferraz, de 24 anos, o primeiro estudante universitário de Vigário Geral, e um amigo dele de infância, Flávio Negão, o chefe do tráfico. Duas opções de vida.

Era um mistério para mim. Os dois são nascidos ali, no mesmo ambiente, na mesma condição cultural, económica e social; tiveram os mesmos professores e um era o líder civil da favela, e o outro, o bandido. No Brasil tínhamos uma visão marxista deformada de que só o meio transformava o homem. O homem era o resultado dado pelas condições sociais e, ali, a realidade me mostrava que havia outras causas para a violência. Havia alguma coisa de biológico nessa história toda também. Foi uma experiência importante para eu entender um pouco o fenómeno da violência.

A expressão “cidade partida” resistiu ao tempo, continua a ser usada.

É, o livro demonstrava que tinha um apartheid social no Rio de Janeiro. A cidade era dividida socialmente, não etnicamente, porque a miscigenação é um traço, mas no plano social havia realmente uma ruptura.

Os anos passaram e o Rio de Janeiro voltou às capas das revistas internacionais, por outras razões.

A cidade está vivendo um momento expositivo, com a atribuição da Copa do Mundo 2014 e das Olimpíadas 2016. Foi muito importante para a auto-estima. A imagem do Rio estava muito degradada e o carioca sofre. A cidade foi sempre cantada em prosa e verso e é vaidosa. Então com qualquer crítica, o carioca se ressente muito.

É muito crítico em relação ao Rio, mas, se você começar a criticar, vai defender a cidade. É impressionante como isso acontece. A escolha como sede das Olimpíadas é uma vitória e é fundamental do ponto de vista psicológico.

Por outro lado, cria metas, obrigações que os governantes vão ter que cumprir. O problema da violência no Rio está hoje sendo enfrentado como nunca foi, de uma forma muito eficaz. Vai acontecer como em Barcelona: uma reorganização urbana da cidade.

Um dos seus livros, 1968 - O Ano Que não Terminou, é um best-seller e inspirou a série de televisão Anos Rebeldes. Quando o publicou, considerava que ninguém se interessaria pelo mítico ano de 68, vinte anos depois. Afinal, voltou ao tema, em 1968 - O Que Fizemos de Nós, quarenta anos depois.

A ideia era fazer uma edição actualizada do primeiro livro. Escolhi personagens icónicos da época e voltei a entrevistá-los (Fernando Henrique Cardoso, Caetano Veloso, Heloísa Buarque de Hollanda, a musa de 1968, entre outros). Queria saber o que estavam pensando da vida deles. Mas o que me deixava mais curioso era ver a diferença entre aquela juventude que queria mudar o mundo, transformar o país, e que no Brasil lutava contra a ditadura militar, e essa geração de hoje, meio apolítica, muito mais voltada para o próprio umbigo…

Que se abstém…

É, parti com alguns preconceitos de que essa juventude de hoje não queria nada, que era abúlica, que não queria saber de política, só queria saber de computador, que era autoreferente, que não queria saber do passado, não queria saber do futuro, só queria saber do presente: carpe diem. Mas eu me surpreendi. Vi que estava carregado de estereótipos.

Por isso foi às raves. Qual era a faixa etária desses jovens?

Eram adolescentes, passei a conviver muito com eles e ainda hoje tenho amigos muito jovens. O trabalho de campo é fundamental. Você ir lá e ver o que está acontecendo. Conversei muito com jovens e percebi que havia um preconceito parecido com aquele que a geração anterior à de 68 também tinha.

Em relação a vocês, os que viveram o Maio de 1968?

Sim, diziam “essa geração não quer nada, só quer fazer passeatas [manifestações], só quer saber de assembleias, não quer estudar”. Agora não há passeatas, mas há festas rave e há toda essa tecnologia. “Só querem saber de ficar no computador e na Internet, não participam politicamente.” E vi que não era bem assim.

Uma das constatações que fiz é que tem aí uma revolução em curso, que é a revolução tecnológica. No plano da comunicação, está a ser feita uma revolução.

São jovens os que estão a fazê-la?

Todas essas invenções - o Google, o Facebook, o Twitter e tudo o que se inventou - têm sido feitas por jovens que, aliás, ficaram ricos com essas descobertas. Esse jovem não é tão alienado. Em 1968, usávamos essa expressão ["alienado"]: falávamos dos participantes, dos engajados e dos alienados, os que não queriam nada com a política. Na verdade, os alienados da época eram os de direita.

Então acusar hoje os jovens de serem alienados é redutor?

É complicado. Você tem uma geração que não quer saber da política pelo menos como a gente a via. Não tem mais passeata, não tem mais comício mas tem uma participação através da Internet. Se quiser um exemplo mundial, basta ver a eleição de Barack Obama.

Foi decisiva a participação dos jovens pela Internet, não era passeata mas era como se fosse. Eu saí dessa experiência tendo outro olhar para a juventude de hoje. Os adolescentes são diferentes, mas a tendência dos pais é quererem que os filhos sejam iguais a eles. E quando são diferentes, acham que são piores. A nossa geração olha para essa geração de hoje com os olhos atravessados porque gostaria que fossem iguais a nós, mas não são, são diferentes. Não quer dizer que sejam piores, em muitos casos são melhores do que a gente, mas não queremos ver isso.

Ao conversar agora com a geração de 68, ao rever aquilo em que acreditavam e em que depois se transformaram, com que é que se confrontou?

É evidente que há uma perda de ilusão. De certa maneira houve o fim da utopia. Havia a crença muito forte de que se podia transformar o mundo com a nossa vontade. Havia um voluntarismo grande em toda essa geração, e até tinha, às vezes, uma base histórica. Por exemplo, na guerra do Vietname. Víamos um país pequeno lutando contra um império e ganhando a guerra. Com um líder como Ho Chi Minh, que era um liderzinho de país perdido.

A revolução cubana tinha incendiado a imaginação da juventude naquela época. Um bando de jovens tomou o poder, derrubou a ditadura. Você via em exemplos desse tipo que era possível. Há uma frase do Geraldo Vandré, que virou uma das trilhas sonoras de 1968, que dizia: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.” Não há nada mais voluntarista do que isso [risos]. A história não se faz dessa maneira. Mas a gente acreditava na utopia, na esperança de mudança, de transformação. E houve muita mudança, muita transformação.

Mais a nível dos costumes do que político.

Era uma geração que achava que ia fazer uma revolução política e fez uma revolução comportamental. Dos costumes, da sexualidade, das relações entre pais e filhos, alunos e professores. Embora também mudasse a forma de se fazer política. Se não tivesse havido 68, não teria havido Barack Obama, não teria havido nos Estados Unidos uma disputa entre uma mulher e um negro. Tem uma herança aí. Uma herança positiva que é visível no comportamento.
Há categorias sociais que avançaram muito: a condição feminina, os direitos dos negros, dos homossexuais e ainda a ideia da ecologia. Mas houve também uma herança maldita que foi a questão das drogas.

Porquê?

Havia a ilusão de que o mundo podia ser transformado pelas drogas, por exemplo, de que a percepção humana podia aumentar com o LSD. Hoje sabe-se que as drogas são um instrumento de morte. Essa foi a pior herança de 1968. É um flagelo.

Referiu a ecologia como uma das conquistas de 68 e isso leva-nos à Amazónia. Como jornalista, esteve no Acre a seguir ao assassínio de Chico Mendes. Regressou 15 anos depois para escrever um livro. Já lá voltou outra vez?

Tenho acompanhado à distância porque não sou militante da causa ambiental. Tenho o maior respeito, mas sou jornalista e nós mudamos de assunto, não é? A nossa vida é pular de um assunto para outro, não sou especialista.

Mas em 1989, quando esteve a fazer a reportagem “O Acre de Chico Mendes”, Prémio Esso de Jornalismo, decidiu intervir nos acontecimentos. Já tinha 58 anos, dois filhos, e adoptou a testemunha principal do processo do assassínio do seringueiro, na tentativa de a proteger. Envolveu-se.

Você tocou no ponto crucial. Durante 40 anos, fui professor de Jornalismo e sempre dizia aos meus alunos que o jornalista não pode interferir nos acontecimentos, que é um espectador privilegiado [risos]. É testemunha e não é participante. Eu me vi interferindo nos acontecimentos trazendo de lá a testemunha do caso Chico Mendes. Mas por que é que eu fiz isso? Acho que faria de novo, traindo toda a teoria. É que esse menino de 13 anos ia ser assassinado, ia ser morto. Eu tinha a certeza disso, o juiz sabia disso, o delegado sabia disso, todo o mundo sabia que ele estava exposto e a família dos assassinos do Chico Mendes ia matá-lo.

Porquê?

Porque era a principal testemunha e foi o responsável pela condenação do pai e do filho que assassinaram o Chico Mendes. Eu caí nessa história da seguinte maneira: depois de estar dez meses de licença a escrever 1968, voltei para o Jornal do Brasil e o meu editor, Marcos Sá Correia, escolheu-me para ir para a Amazónia. Eu não queria ir, disse que morria de medo de cobra, que me ia perder lá, que não gostava de floresta. Mas ele queria alguém que não tivesse engajamento nenhum porque era uma época de muitas paixões.
Iria passar meses visitando vários estados e acabei começando pelo Acre, a terra do Chico Mendes. Ia ficar quatro dias e fiquei um mês.
Apaixonei-me pela história e também pela possibilidade de descobrir alguma coisa do crime, do que tinha acontecido.

No livro Chico Mendes - Crime e Castigo conta que encontrou Genésio, a testemunha do assassínio, na cidade de Xapuri.

Ele estava ali, perdido, sob a protecção da polícia. Ficava sentado numa cadeira na porta ou da delegacia ou da polícia militar, exposto a levar um tiro. Se tinham matado o Chico Mendes, que era já naquela época uma personagem planetária, se tinham ousado, imagina com aquele menino. Na última viagem fiquei pensando: “Esse menino vai morrer; eu vou fi car com o peso de saber que ele ia ser assassinado e que não fiz nada para evitar.” Então, eu e um amigo alugámos um aviãozinho e tirámos o Genésio de lá. Claro que falei com o juiz antes e todo o mundo na verdade fi cou aliviado porque significava que ele estava salvo.

Quando Genésio atingiu a maioridade, escreveu uma crónica onde contava que o menino foi sempre um inadaptado: saiu da Amazónia, mas era lá que queria ter estado.

Enquanto estava sob a minha protecção, não o deixava ir porque corria o risco de ser assassinado se voltasse. Mas ele nunca se libertou das suas raízes na Amazónia.

Quando completou a maioridade, voltou para lá. Conto isso no último capítulo do livro Minhas histórias dos outros. Estive na Amazónia com ele, algumas vezes, mas não tenho mais o que fazer porque ele ganhou a sua autonomia. É aquele filho que vai levar a vida que quer levar. É a história de um fracasso, eu fracassei.

Cresceu em Nova Friburgo, região serrana do Estado do Rio, e não imaginava que seria jornalista. Estudava e, ao mesmo tempo, trabalhava com o seu pai, que era operário?

Era pintor de paredes. Aos 11 anos fui trabalhar com ele, comecei como pintor, ajudando. Depois trabalhei numa loja de camisas, fui officeboy num bar e num banco. Estudava enquanto isso. Gostava de estudar, a minha mãe também, engraçado, ela que era semianalfabeta. O meu pai achava que tinha de se trabalhar para ganhar dinheiro. O pai do meu pai era português, do Norte, e ele tinha uma concepção de vida muito prática. Mas a minha mãe achava que tinha de se estudar.

Existiam livros lá por casa?

Em minha casa, o ambiente era muito pouco propício à leitura. Por que é que eu sempre gostei de ler? Não sei. Tenho mais três irmãos, sou o do meio, tenho duas irmãs mais velhas e um irmão mais novo. É muito curioso, não éramos miseráveis mas éramos realmente muito pobres. Não me lembro qual foi o primeiro livro que li, mas me lembro de alguns livros que foram fundamentais na minha adolescência.

Quais?

Era uma leitura muito desorganizada. Li desde um livro que me marcou muito chamado Judas, o Obscuro de Thomas Hardy até uma série de livros sobre índios. Não sei como é que esses livros vieram parar a mim: foi por acaso. A cidade onde eu fui criado no interior, Nova Friburgo, também não era uma cidade cultural. Tive uma amiga que era professora que me emprestava livros.
A sensação que tenho agora, à distância, é que o livro chegou para mim sorrateiramente.

Não tenho a revelação do primeiro livro. São vários livros chegando de uma maneira desordenada e eu fui na verdade ordenar a minha leitura na Faculdade de Letras no Rio de Janeiro, onde fiz o curso de Letras Neolatinas.

E teve como professores a especialista em Fernando Pessoa Cleonice Berardinelli e o poeta Manuel Bandeira.

Num dia memorável na minha vida, com umas colegas, fui convidado por Manuel Bandeira, que vivia em frente à faculdade, para ir a casa dele. Foi um alumbramento ficar vendo aquele apartamento pequeno atulhado de livros. Foi uma experiência fantástica porque ele já era um dos maiores poetas da língua portuguesa. Não era um grande professor porque tinha má dicção e um pigarro permanente, tinha sido tuberculoso numa época em que a doença deixava sequelas. Mas tinha um conteúdo incrível.

Numa sessão na última Festa Literária de Paraty, contou que trouxe dessa visita um soneto erótico (A Cópula) capaz de fazer corar Drummond de Andrade. Também falou de lição de vida.

Até a poesia dele é suja de vida, suja dos acontecimentos, dos personagens. Existe um bairro no Rio de Janeiro, que até hoje é boémio, a Lapa, que na época era um bairro maldito, das prostitutas, dos malandros, onde Bandeira chegou a viver. A poesia dele é encharcada dessa vida marginal e para mim, realmente, isso foi uma lição de vida.

Essa sua ida para o Rio de Janeiro mudou realmente a sua vida.

Foi um choque cultural muito forte porque naquela época a capital ficava muito distante, não tinha rodovia, havia uma série de dificuldades.

Foi toda uma batalha, ficar em casa de parentes de favor, passar no exame que era muito difícil. De repente, estava no Rio de Janeiro.

Fui morar no bairro do Noel Rosa, um grande compositor brasileiro, o bairro Vila Isabel. Foi uma mudança de universo, uma mudança cultural muito grande. Sair do interior, sem recursos nem ofertas culturais, e ir para uma cidade com todas aquelas ofertas fascinantes: de teatro, de cinema, da vida nocturna, da boémia.
Enfim, tudo isso foi uma transformação na minha vida. Igual a isso só anos depois quando consegui uma bolsa de estudo e fui estudar em Paris. Outra descoberta.

Foi aliás por causa de um escritor francês, Albert Camus, que iniciou a sua carreira de jornalista. Aventurou-se a escrever o seu obituário. Quer contar?

Na faculdade, eu tinha um professor genial, o Hélcio Martins, que acreditava muito em mim e sabia das minhas dificuldades financeiras.

Dirigia o arquivo do jornal Tribuna da Imprensa, de Carlos Lacerda, e ofereceu-me um emprego das seis da tarde à meia-noite. Hélcio queria que eu escrevesse para o jornal, mas eu dizia-lhe: “Quero é ler, não quero escrever.” Ficava trabalhando no arquivo longe da redacção. Um dia, passei lá por cima, e Carlos Lacerda estava procurando alguém para escrever o obituário de Albert Camus, um dos meus autores preferidos.

Disse-lhe que o podia fazer mas imediatamente me arrependi porque ele era muito rigoroso, todo o mundo morria de medo dele.

Escrevi. O tal artigo acabou tendo um certo sucesso, menos pelo artigo e mais porque correu a lenda de que o office-boy era um génio. Eu não era o office-boy e muito menos génio, mas ficou aquela lenda. Aí me chamaram para ir para a redacção, ofereciam um salário que era três vezes mais do que o que eu ganhava no arquivo. Foi assim que comecei a minha carreira, um caminho meio enviesado pela literatura de certa maneira.

Uma carreira que o levou a estar em Paris, nos anos de 1960, como correspondente e em Portugal, na época da revolução de 1974. Esteve em Lisboa como enviado especial e o seu amigo Glauber Rocha também cá estava. Tinha o projecto de escrever a biografia do cineasta brasileiro (1939-1981). O que aconteceu?

Comecei a escrever a biografia e decidi começar pela morte do Glauber Rocha. Ele era muito supersticioso e tinha premonições. Achava que ia morrer de cancro, tinha visões. Era muito dramático, muito teatral. Eu queria fazer uma coisa cinematográfica, começar pela morte e depois contar a vida. A apuração da morte era mais fácil porque ele tinha começado a morrer em Sintra e, como eu era amigo dele, tinha acompanhado a sua morte no Rio. Então fui a Sintra, várias vezes, descobri o motorista de táxi, os amigos, o restaurante onde ele jantava, as babás dos filhos dele. Tinha um caderno - desse tamanho [faz o gesto com as mãos] sobre o Glauber.

Que género de coisas é que lá apontava?

Fui à casa onde ele morou em Sintra e consegui ver o quarto onde dormia e ficava, à noite, fumando maconha, andando de um lado para o outro. Tinha apontado no caderno, por exemplo, as medidas do quarto dele. Depois, um dia, tive um carro roubado e o caderno estava lá dentro. Achei que esse caderno não interessava a ninguém e botei anúncio num jornal que é lido pelos criminosos, achando que o iam devolver. O caderno sumiu. Nunca mais foi devolvido. Então comecei a entrar num processo glauberiano, achando que aquilo era um aviso. Que ele estava mandando recado para mim: “Não faça isso. Não se meta por aqui.” E acabei desistindo. Fiquei impressionado com aquilo de perder um caderno com dois anos de anotações.

Está a acabar um livro, um projecto antigo, a que deu o nome Sagrada Família.

Comecei a escrevê-lo há três anos, depois parei, recomecei e vou terminar este ano. É um livro de memórias inventadas, não são as minhas memórias puras. É uma história de duas irmãs, uma história de amor que se passa em Nova Friburgo, é uma ficção mas tem todo um clima de época. Se passa nos anos 40, durante a Segunda Guerra Mundial e durante a ditadura de [Getúlio] Vargas, uma ditadura civil com muita repressão política. Essa época é a da minha adolescência. São memórias colectivas. Tem memórias pessoais, sim, mas são recriadas ou reinventadas.

É um regresso ao passado?

Acho muito chato essa coisa da nostalgia do passado. Ficar dizendo: “No meu tempo…” Luto contra isso. Fiz as entrevistas de um documentário sobre o Paulinho da Viola, Meu Tempo É Hoje, que é um verso do Paulinho. Acho que é isso mesmo: sou muito mais feliz hoje do que era na minha juventude. Não olho para o passado.

Tem coisas que eu lembro e acho legais ter vivido, ter participado. Mas não fico preso ao passado. Isso faz com que me interesse muito pelo presente, então também não estou muito virado para o futuro. Embora eu faça planos, teria que viver 100 anos. Ninguém pensa que vai morrer amanhã.

Pois não.

Tem um mestre maravilhoso nisso. A semana passada fui a casa de Oscar Niemeyer. Está com 102 anos e falando do futuro. Ele faz um curso de Filosofia e Ciência há cinco anos. Tem um professor particular que vai lá a casa. O arquitecto fala como se realmente fosse viver 300 anos. O projecto dele é o próximo projecto. Só não somos mais felizes porque vivemos num país que tem problemas seríssimos. Onde você tem uma exclusão social absurda. Na maior parte do país, as pessoas não têm condições de vida, não têm estudos. O Rio é uma cidade com crianças na rua, cheirando cola. É muito difícil ser inteiramente feliz num ambiente social com tanta desigualdade e tanta injustiça social.

Mas eu adoro os meus amigos, sou uma pessoa sociável, gregária e essa coisa não me dá tempo de olhar para trás e dizer que besteira, que loucura que eu fiz. Não vejo nada disso. Acho que realmente meu tempo é hoje.

É essa a sua marca?

É naturalmente. Não é um projecto de vida. Depois que tive o cancro… isso foi fundamental na mudança de olhar. A perspectiva da morte superada, ela nos dá esse novo olhar. Preocupava-me com tanta bobagem, deixava de valorizar tanta coisa. Hoje sei que aquele momento que estou a viver é que interessa. Às vezes, deixava de viver o momento para depois ter saudades. Para dez anos depois lembrar que bom tinha sido aquele momento. Por isso prezo muito o aqui e agora. Não tenho vergonha de ser feliz agora, não.



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Excelente entrevista com alguem que tem muito a ensinar.Abs.André

andre albuquerque · Recife (PE) · 3/5/2010 17:14
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