Publicado originalmente por Cassiano Viana em 10/01/2008.
Conheça Julio Cortázar através do artista plástico Luis Tomasello, amigo e parceiro em obras do autor de
O jogo da amarelinha. Leia também correspondência inédita em português de Cortázar para Tomasello, de 1979.
Nascido em 1915 em La Plata, Argentina, o artista plástico Luis Tomasello mudou-se em 1957 para a França, onde vive há 50 anos e conheceu o escritor argentino Julio Cortázar, de quem foi amigo dos últimos dias. Tomasello estava ao lado de Cortázar no momento em que o autor de
O jogo da amarelinha faleceu.
"Era muito dado aos amigos, e eu não sou um intelectual, mas passávamos horas falando da vida, de política e da arte e de causas perdidas. Era ele que falava mais que eu, e eu sei escutar e muito aprendi com ele. Além do que, não emprestava livros a ninguém, mas a mim, sim. Um amigo afetuoso. Um escritor intenso", lembra.
Aos 92 anos, Tomasello já exibiu na Europa, Canadá, Japão, América do Sul, América Central e Estados Unidos. "Sigo trabalhando como sempre, viajando duas vezes por ano para a Argentina e ultimamente para Miami e Houston, Texas, porque trabalho com a Sicardi Gallery", conta o artista.
Cortázar escreveu dois poemas para duas obras de Tomasello: "Un elogio del tres" (1980) e "Niegro el diez" (1984), este considerado o último texto do
cronópio.
"Tanto em 'Un elogio del três' quanto em 'Negro el 10' fizemos o inverso do que se faz sempre ou seja o pintor ilustra de acordo com o tema. Eu fiz os desenhos primeiro e Julio escreveu a partir desses desenhos. 'Niegro el 10', eu escolhi serigrafias de quadros negros; a quantidade de reproduções escolheu o editor, 10. E o título, Julio, porque na poesia fala da roleta, que se joga vivendo, e quando sai o número 10 é negro. Está claro no título. É um livro-objeto e a capa é um relevo com meus trabalhos em negro", explica o artista plástico.
A idéia inicial para "Un elogio al tres" foi de Gottfried Honnegger, artista plástico suíço que conhecia o
publisher alemão Dölf Hürlimann, que, por sua vez, fazia livros de arte. "A condição era que este fosse o trabalho de um artista plástico e de um escritor. Fiz então o convite a Cortázar, que aceitou escrever o texto", recorda Tomasello.
"Elogio" tem início com uma citação a Leopoldo Marechal, poeta, novelista, dramaturgo e ensaísta, um dos grandes escritores argentinos do século XX, autor de Adán Buenosayres [de 1948], uma grande referência para os artistas plásticos da Argentina: "Com o número dois, nasce a pena".
O texto é um poema, escrito pelo cronópio, que segue uma progressão quase que aritmética: surge o um (o paraíso, o éden), o dois (o castigo) e, deles, o três, o número perfeito, que dança em si e para si mesmo, ignorando o éden e se opondo ao castigo. E do três parece surgir o homem (os verdadeiros anjos que dançam), aquele que se rebela e ri contra a morte (aqui é preciso levar em consideração a ligação de Cortázar com as lutas contra as ditaduras na América Latina).
A carta enviada do México por Julio Cortázar a Tomasello, em 1979, e a tradução (em duas versões) do poema "Un Elogio al Tres", ajudam a compreender melhor o envolvimento do escritor nesta parceria. A própria missiva um trabalho de mestre:
Zihuatanejo, 1980
Querido Luis:
Aqui vai o texto para nosso livro (digo "nosso" com muita pretensão, porque minha contribuição é sobretudo uma presença de amizade e admiração, mas sei que para ti o resultado será esse, algo nosso).
Trabalhei como faço sempre em casos análogos. Olhei e olhei muito tuas composições, tive-as vários dias como um baralho de pôquer sobre a minha mesa, e quando senti o ritmo e vi que do um se passava ao dois, do dois ao três e que a partir daí o três começava a jogar mantendo-se sempre em três, o texto nasceu sólido, e o parto foi absolutamente sem dor.
Organicamente, verás que o texto nasceu em blocos (estrofes, mas eu os vejo como blocos tipográficos); creio que é uma grande vantagem para que Honnegger e você possam distribuí-los tipograficamente de uma maneira rítmica. Fiz uma cópia usando somente maiúsculas porque assim se evitam os acentos e as maiúsculas no começo. Tampouco há pontos finais. O olho reconhecerá por si mesmo o ritmo e fará as pausas necessárias ao passar de um bloco ao seguinte.
Há uma possibilidade, que já falaremos. Quanto ao sentido de alguns versos, há uma vírgula (que aqui não coloquei) e penso que talvez poderia-se separar um pouco mais as palavras para que o olho reconheça a vírgula, ou seja a pausa, e então o sentido se torne mais claro.
Um exemplo:
Estes versos, te copiei assim:
E DO EDEN E DO CASTIGO
NASCEU O SUOR NASCEU A MORTE
Mas poderiam também ser assim:
E DO EDEN E DO CASTIGO
NASCEU O SUOR_____________________NASCEU A MORTE
Neste caso, o olho registra uma pausa (equivalente à uma vírgula) entre "suor" e "nasceu". Ou seja, que a leitura se simplifica. Trata-se de que você me diga qual fórmula prefere, diante do problema da composição tipográfica.
Bom, oxalá isto lhe agrade um pouco. Carol e eu voltamos dia 29 a Paris e espero te ver quando tenhas tempo e vontade.
Um grande abraço,
Julio
Fico com a maqueta que me deste porque aqui nesta aldeia não encontro um envelope grande e sólido. Te devolvo em Paris.
Carta de Julio Cortázar para Luis Tomasello, de Zihuatanejo (México), em 19 de agosto de 1979 (em Biblioteca Cortázar, Cartas 1969-1983, Espanha, Ed. Alfaguara).
> Confira um dos poemas de Cortázar para as obras de Tomasello.
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