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Os Parêntesis de Salinger
 
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Daniel Ricardo Barbosa, Belo Horizonte (MG) · 7/2/2010 · 70 votos · 4
Nilson Borges Filho
Quem gosta de Centeio?
Nesse artigo quebrarei as barreiras éticas que comumente ergo antes de escrever e publicar na Web. Quebrarei a ética ao menos no que se refere à não-inserção de assuntos de cunho íntimo. Desejarei do alto – ou baixo – de minha cadeira, em nome de um morto e em sua homenagem, agradecimentos aos que se mostraram tão sensibilizados e comovidos com o falecimento do dito, não se contiveram e espalharam pela mídia as suas mensagens em formato reportagem ou crônica.
Quebro as barreiras justamente porque o autor morto referido me é de grande importância. Desde muito jovem ouvia dizer de sua “obra-prima”, e pensava: “Preciso ler!”. Não sei por que cargas d'água, embora nunca tenha deixado de lembrar o título do livro, adiei a leitura até o fim da minha adolescência. “Não vou mais adiar!”, decidi subitamente, e corri até a biblioteca pública a fim de requisitar o volume.
“Cuidado com esse livro! Ele deixa a gente pinel!”, disse a atendente – nesta época eu sequer sabia que “Pinel”, na verdade, é um vocábulo originário do nome de um Hospital Psiquiátrico; só depois de batizado o homônimo hospital é que pinel recebeu a pejorativa carga a designar “lunáticos”.
Não dei importância, porém, às recomendações de “cuidado com o conteúdo do livro” da bibliotecária. Meus motivos para ler “O Apanhador no Campo de Centeio” eram menos “pungentes” do que os que embalaram a leitura de David Chapman, John Hincley Jr., Marilyn ou Charles Manson, entre tantos outros. Eu queria apenas dar vazão ao ímpeto à leitura e não corroborei – que eu saiba – a teoria da conspiração de que a leitura do “Apanhador...” seria como uma chave a desencadear o espírito assassino que há em certos indivíduos. Desejava apenas que o livro me trouxesse boas e bem elaboradas questões.
No entanto, tão rápido quanto os olhos moviam sob o orientar das linhas escritas, sem que eu percebesse as ideias em movimento, algo mudava irremediavelmente na alma. Só para fazer uma breve citação: a partir do “O Apanhador no Campo de Centeio” (marco mais nítido a dividir o antes e o depois), decidi levar mais além as palavras que desde a infância eu riscava no caderno. As raízes plantadas na alma por tal livro alcançaram indizível profundidade. O mundo não voltaria a ser o mesmo, assim como as vistas lançadas em suas paisagens pelos mesmos olhos antes tanto quanto indiferentes, tocavam as coisas de outra maneira; agora singular, suave e melancolicamente.
Ante a morte de J.D. Salinger, as infindáveis matérias sobre autor falecido e seus livros – autor este que passou o último meio século recluso e reagindo violentamente às tentativas dos médias de lançar o seu nome outra vez no picadeiro do circo da mídia –; diante de reportagens que especulavam sobre as doenças psicossomáticas que, muito possivelmente, levavam Holden Caulfield a ser como ele era – ou melhor: como ele é –, ou mesmo perante as lembranças sobre o que já disseram a respeito de J.D. Salinger (sempre o imaginei sorrindo largamente das especulações do mundo ao redor de seu ermitério – inclusive das doenças que os psicólogos passavam a aplicar no decorrer das décadas a cada sentimento humano de inconformidade), pensei em quebrar as tais barreiras éticas que me impedem de abordar assuntos íntimos em textos que escrevo para publicação na Web e fazer uma homenagem póstuma.
Ao invés de enviar votos psicográficos a Salinger, acender velas ou incensos, no entanto, tomarei a liberdade de usar duas ou mais frases de sua autoria e dirigi-las a todos aqueles que, nunca o tendo lido, resolveram se sentir comovidos com o falecimento do autor, e escrever reportagens, exaltar, especular, criticar “O Apanhador no Campo de Centeio” ou outras obras deste que me é e sempre será tão caro.
A vocês, críticos, exaltadores de plantão, especuladores de rodinha e profissão, “num espírito de congraçamento, antes que nos juntemos aos demais – os que estão encalhados por aí por toda parte, inclusive, estou certo, os loucos ao volante de meia-idade que insistem em nos mandar para a Lua, os vagabundos que se creem iluminados por Buda, os fabricantes de cigarros com filtro para os homens que sabem escolher o melhor, os beatniks, os mal-ajambrados e os petulantes, os adeptos de cultos obscuros, todos os imponentes peritos que tão bem sabem o que devemos ou não fazer com nossos humildes órgãos sexuais, todos os jovens barbudos, orgulhosos e iletrados, bem como os guitarristas sem talento, os assassinos do budismo zen e os delinquentes juvenis de roupas padronizadas, todos esses que, do alto de sua infinita ignorância, olham para este esplêndido planeta por onde (por favor, não me interrompam agora), passaram o Palhaço Biriba, Cristo, Shakespeare – antes de nos juntarmos a todos eles, eu muito particularmente lhe peço, velho amigo (para dizer a verdade, quase imploro), que aceite de mim este despretensioso buquê de recém-desabrochados parênteses: (((())))”.

Citação entre aspas retirada do livro: “Seymour: uma apresentação”.


tags: Belo Horizonte MG literatura


 
Oi, Daniel! Bom ver vc por aqui tb! Engraçado você escrever sobre o auê em torno da morte de Salinger, eu tb comentei com um amigo que no Brasil escritor só era notícia quando ganhava prêmio ou morria. Ainda bem que existem uns poucos espaços, como o Portal, para a gente conhecer novos escritores e debater sobre a produção contemporânea. Pois é realmente fácil lamentar a perda de um grande escritor (tb li o Apanhador na adolescência), é fácil elogiar um grande talento quando ele se vai, mas e falar sobre nossos contemporâneos? Sobre tantos que escreveram a primeira obra, publicaram com recursos próprios e aguardam retorno dos críticos literários?

Erica N. · Campinas (SP) · 6/2/2010 22:00
Érica: concordo inteiramente com o seu comentário. É fácil reconhecer o trabalho de quem já se foi. Por mais atual que seja a sua obra, a melhor manifestação de homenagem póstuma não pode se resumir a matérias escritas por quem nunca leu absolutamente nada da autoria do defunto, mas justamente a tentativa de compreender sua obra e procurar através de novos talentos influenciados por ela a repercussão de tal texto. As grandes obras tendem a sobreviver justamente no trabalho de novos talentos, atuam como influência, mas o que acontece se o novo talento quase não encontra espaço para expor a sua arte? A balbúrdia post mortem não será capaz de levar a clássica obra adiante, e a falta de espaço simplesmente legará a obra dos clássicos ao esquecimento por falta de herdeiros. E, sim, devemos agradecer a espaços como o Portal Literal e o Blog da Ofício Editorial, sempre prontos a darem visibilidade ao novo talento e sua gama de influências.Obrigado pelo comentário e pela oportunidade de deixar essas palavras! Um grande abraço!

Daniel Ricardo Barbosa · Belo Horizonte (MG) · 7/2/2010 13:22
Não nego a influência que assimilei com "O Ampanhador...", influência positiva, de estilo e desenvoltura na fluência verbal. Muito bom ler esse artigo e poder absorver sentimentos similares.Votado.

Osair Manassan · Goiânia (GO) · 7/2/2010 18:15
Olá Osair! Obrigado por seu comentário e voto! Fico feliz por saber que o artigo lhe trouxe reminiscências. Bom ver que "O Apanhador..." o influenciou positivamente e partilhar contigo de similares sentimentos em relação ao livro. Visitei o seu blog e esteja certo de que lá voltarei: foi uma grata descoberta! Grande abraço!

Daniel Ricardo Barbosa · Belo Horizonte (MG) · 8/2/2010 12:55
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