Nesse artigo quebrarei as barreiras éticas que comumente ergo antes de escrever e publicar na Web. Quebrarei a ética ao menos no que se refere à não-inserção de assuntos de cunho íntimo. Desejarei do alto – ou baixo – de minha cadeira, em nome de um morto e em sua homenagem, agradecimentos aos que se mostraram tão sensibilizados e comovidos com o falecimento do dito, não se contiveram e espalharam pela mídia as suas mensagens em formato reportagem ou crônica.
Quebro as barreiras justamente porque o autor morto referido me é de grande importância. Desde muito jovem ouvia dizer de sua “obra-prima”, e pensava: “Preciso ler!”. Não sei por que cargas d'água, embora nunca tenha deixado de lembrar o título do livro, adiei a leitura até o fim da minha adolescência. “Não vou mais adiar!”, decidi subitamente, e corri até a biblioteca pública a fim de requisitar o volume.
“Cuidado com esse livro! Ele deixa a gente pinel!”, disse a atendente – nesta época eu sequer sabia que “Pinel”, na verdade, é um vocábulo originário do nome de um Hospital Psiquiátrico; só depois de batizado o homônimo hospital é que pinel recebeu a pejorativa carga a designar “lunáticos”.
Não dei importância, porém, às recomendações de “cuidado com o conteúdo do livro” da bibliotecária. Meus motivos para ler “O Apanhador no Campo de Centeio” eram menos “pungentes” do que os que embalaram a leitura de David Chapman, John Hincley Jr., Marilyn ou Charles Manson, entre tantos outros. Eu queria apenas dar vazão ao ímpeto à leitura e não corroborei – que eu saiba – a teoria da conspiração de que a leitura do “Apanhador...” seria como uma chave a desencadear o espírito assassino que há em certos indivíduos. Desejava apenas que o livro me trouxesse boas e bem elaboradas questões.
No entanto, tão rápido quanto os olhos moviam sob o orientar das linhas escritas, sem que eu percebesse as ideias em movimento, algo mudava irremediavelmente na alma. Só para fazer uma breve citação: a partir do “O Apanhador no Campo de Centeio” (marco mais nítido a dividir o antes e o depois), decidi levar mais além as palavras que desde a infância eu riscava no caderno. As raízes plantadas na alma por tal livro alcançaram indizível profundidade. O mundo não voltaria a ser o mesmo, assim como as vistas lançadas em suas paisagens pelos mesmos olhos antes tanto quanto indiferentes, tocavam as coisas de outra maneira; agora singular, suave e melancolicamente.
Ante a morte de J.D. Salinger, as infindáveis matérias sobre autor falecido e seus livros – autor este que passou o último meio século recluso e reagindo violentamente às tentativas dos médias de lançar o seu nome outra vez no picadeiro do circo da mídia –; diante de reportagens que especulavam sobre as doenças psicossomáticas que, muito possivelmente, levavam Holden Caulfield a ser como ele era – ou melhor: como ele é –, ou mesmo perante as lembranças sobre o que já disseram a respeito de J.D. Salinger (sempre o imaginei sorrindo largamente das especulações do mundo ao redor de seu ermitério – inclusive das doenças que os psicólogos passavam a aplicar no decorrer das décadas a cada sentimento humano de inconformidade), pensei em quebrar as tais barreiras éticas que me impedem de abordar assuntos íntimos em textos que escrevo para publicação na Web e fazer uma homenagem póstuma.
Ao invés de enviar votos psicográficos a Salinger, acender velas ou incensos, no entanto, tomarei a liberdade de usar duas ou mais frases de sua autoria e dirigi-las a todos aqueles que, nunca o tendo lido, resolveram se sentir comovidos com o falecimento do autor, e escrever reportagens, exaltar, especular, criticar “O Apanhador no Campo de Centeio” ou outras obras deste que me é e sempre será tão caro.
A vocês, críticos, exaltadores de plantão, especuladores de rodinha e profissão, “num espírito de congraçamento, antes que nos juntemos aos demais – os que estão encalhados por aí por toda parte, inclusive, estou certo, os loucos ao volante de meia-idade que insistem em nos mandar para a Lua, os vagabundos que se creem iluminados por Buda, os fabricantes de cigarros com filtro para os homens que sabem escolher o melhor, os beatniks, os mal-ajambrados e os petulantes, os adeptos de cultos obscuros, todos os imponentes peritos que tão bem sabem o que devemos ou não fazer com nossos humildes órgãos sexuais, todos os jovens barbudos, orgulhosos e iletrados, bem como os guitarristas sem talento, os assassinos do budismo zen e os delinquentes juvenis de roupas padronizadas, todos esses que, do alto de sua infinita ignorância, olham para este esplêndido planeta por onde (por favor, não me interrompam agora), passaram o Palhaço Biriba, Cristo, Shakespeare – antes de nos juntarmos a todos eles, eu muito particularmente lhe peço, velho amigo (para dizer a verdade, quase imploro), que aceite de mim este despretensioso buquê de recém-desabrochados parênteses: (((())))”.
Citação entre aspas retirada do livro: “Seymour: uma apresentação”.
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