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Considerações sobre o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa
 
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Portal Literal 1.0, Rio de Janeiro (RJ) · 19/8/2008 · 66 votos · nenhum
  
Publicado originalmente por José Carlos de Azeredo* em 16/05/08.


A idéia de uniformidade é inerente ao espírito da ortografia. Comecemos por sua razão mesma de ser. Ela é criada em qualquer país para padronizar a forma gráfica das palavras da língua comum aos seus cidadãos. A uniformização ortográfica é possível porque ela é, antes de mais nada, produto de convenção e acordo. Fala-se português de forma diferente nas diversas regiões do Brasil, mas a ortografia é uma só, e tem de ser uma só, ou ela perderia o sentido. Desse fato se conclui que não existe ortografia cem por cento fonética: a existência de diferentes pronúncias, em escala regional ou mesmo nacional, não é argumento para a diversidade ortográfica. O espanhol tem uma só ortografia em todo o mundo de língua espanhola, a despeito das óbvias diferenças de pronúncia entre os cidadãos de Madri, de Bogotá ou de Havana. Jornais, livros e documentos públicos impressos na Espanha, na Colômbia e em Cuba adotam a mesma ortografia.

Por que os oito países de língua oficial portuguesa precisam de duas ortografias diferentes? O que justificaria o apego de certas pessoas à forma gráfica de alguma palavra, se a ortografia sequer é parte da língua?

A língua que falam os portugueses, os angolanos e os brasileiros não será afetada pela adoção das mudanças ortográficas. Não se pode vincular unificação ortográfica a unificação lingüística. Unificação ortográfica nada tem a ver com uniformização da língua. As línguas são como são em virtude do uso que seus falantes fazem dela, e não de acordos de grupos ou de decretos de governo.

Conheço a opinião de intelectuais portugueses notáveis que são contrários ao Acordo: alguns acham que é desnecessário, porque as diferenças vigentes não dificultam a leitura de textos impressos em Portugal por brasileiros, nem a de textos impressos no Brasil por portugueses; outros, mais apaixonados, acham que o Acordo só beneficiaria o Brasil, que ampliaria seu mercado de livros, especialmente os utilizados na escola fundamental, para os países africanos. E quem pode ter medo disso ou opor-se a isso? Digamos que seja verdade, que essa expansão possa vir a ocorrer. Em que sentido ela poderia ser prejudicial? Só se é aos interesses econômicos dos livreiros portugueses.

Mas Portugal tem uma profunda e histórica identificação com os ideais da cultura humanística. Portugal se oporia à propagação do livro brasileiro, livro escrito na mesma língua em que se expressam os poetas, os romancistas, os cientistas e todos os sábios homens de letras portugueses? A expansão do livro brasileiro só pode hoje prestar um extraordinário serviço ao conhecimento da língua portuguesa no mundo. Portugal tem um órgão pujante com esta missão: o Instituto Camões. Ele recusaria uma colaboração brasileira nesse projeto gigantesco que o Instituto Camões, a despeito de sua pujança, não pode realizar sozinho?


* José Carlos de Azeredo é professor adjunto de língua portuguesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Uerj) e e professor aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).



tags: Rio de Janeiro RJ literatura acordo-ortografico lingua-portuguesa


 
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